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A força da natureza. A lĂ³gica do progresso. Uma ilha incĂ³moda. E a descoberta do desejo, tambĂ©m ele indomĂ¡vel. Um encontro que se revela criativo. Wild River.Desde que o vi pela primeira vez que Wild River me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomĂ¡vel da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diĂ¡logos contidos, os gestos expressivos... HĂ¡ qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poĂ©tico neste filme! A terra e a alma estĂ£o ligadas, na avĂ³ da jovem mulher. A prĂ³pria mulher Ă© um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirĂ¡ ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistĂªncia Ă abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) Ă© mais aparente do que real. E Ă s vezes sĂ³ se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, sĂ£o mais chuvadas, estĂ¡-se em Outubro).
Bem, nesta altura jĂ¡ deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar Ă©, tambĂ©m ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem tambĂ©m, tambĂ©m assim azul...
Voltando ao Wild River: A avĂ³ de uma jovem mulher, viĂºva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. PermanecerĂ¡ ali, teimosamente, atĂ© a obrigarem a sair. Vemos, no seu Ăºltimo olhar desesperado para a Ă¡rvore que cai, que alguma coisa dentro de si tambĂ©m começou a cair... E mesmo que a nova casa tambĂ©m tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... nĂ£o durarĂ¡ muito, adormecerĂ¡ na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardarĂ¡ ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que sĂ³ desta vez reparei.
HĂ¡ momentos verdadeiramente mĂ¡gicos. Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tĂ£o intensos, os filmes desta Ă©poca! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tĂ£o minimalista. Elia Kazan Ă© exĂmio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitaĂ§Ă£o Ă© interior, estĂ¡ quase a explodir, jĂ¡ a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo estĂ¡ diferente. Eles mudaram. E serĂ¡ assim a partir daĂ. AtĂ© ele descobrir que nĂ£o Ă© assim tĂ£o auto-suficiente... que (tambĂ©m ele) precisa dela. NĂ£o Ă© fĂ¡cil amar-te, dir-lhe-Ă¡ ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... EstĂ¡ Ă sua frente, tĂ£o franca e vulnerĂ¡vel, tĂ£o altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amĂ¡-lo, mesmo podendo perdĂª-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.
Sim, hĂ¡ qualquer coisa de bravio neste filme. E de poĂ©tico tambĂ©m. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacĂfico nĂ£o irĂ¡ poder resistir. NĂ£o apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitarĂ¡ o seu desafio e da forma mais inesperada possĂvel. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso nĂ£o Ă© importante. Ali estĂ£o, no meio da lama onde tinham caĂdo, lado a lado. E entĂ£o o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que provavelmente ele se irĂ¡ arrepender e que certamente ela se arrependerĂ¡... Mais inesperado do que isto, Ă© impossĂvel.
Sim, o homem ganha uma famĂlia instantĂ¢nea, como jĂ¡ lhe tinha dito, de forma sarcĂ¡stica, um dos manda-chuvas do sĂtio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivĂduos exemplificam, na perfeiĂ§Ă£o, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. TambĂ©m Ă© aqui visĂvel o racismo, em que nĂ£o hĂ¡ igualdade de tratamento nem de salĂ¡rios. Esse Ă©, aliĂ¡s, um dos pontos de fricĂ§Ă£o cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui tambĂ©m podemos medir a sua coragem na medida inversa Ă sua habilidade e força fĂsica. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita Ă violĂªncia fĂsica, nĂ£o abdicando dos seus princĂpios.
Em Wild River a natureza estĂ¡ sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso tambĂ©m estĂ¡ a acontecer dentro de nĂ³s, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma Ă¡rvore a tombar…
O ritmo tambĂ©m acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que sĂ³ se sente a respiraĂ§Ă£o das personagens, dirĂamos que numa linguagem e num tempo mais prĂ³prios do teatro (e isso Ă© muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick Ă© a viĂºva um pouco bravia. Montgomery Clift Ă© o homem pacĂfico. Jo van Fleet Ă© a mulher da ilha, de um territĂ³rio, raiz de uma Ă¡rvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimĂ³nia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilĂbrio instĂ¡vel. Em Wild River atĂ© a barragem parece ligar-se de forma poĂ©tica Ă s montanhas que a envolvem. Mas serĂ¡ possĂvel dominar um Wild River?